"Parece que a maioria das pessoas acredita sem entender. Os mandamentos dizem 'Não Matarás', e a metade do mundo está sendo treinada para o aniquilamento da outra metade. Eu não aceitaria ser obrigado a vestir um uniforme e viajar até Aden para matar um monte de gente que nem conheço e contra quem nada tenho. A guerra brota de políticos insanos por poder. Políticos?! Que peso morto eles são!"
Mick Jagger, Londres, 1968.
Em 1968 o mundo estava virado de cabeça pra baixo. Enquanto os países Latino-Americanos sofriam com a eliminação dos direitos civis orquestrada pelas ditaduras militares que se instauravam (no Brasil, este foi o ano do AI-5), nos EUA, a juventude protestava contra a guerra do Vietnã e pelos direitos dos negros e das mulheres.
No velho continente as coisas também não andavam lá muito tranqüilas: a União Soviética invadia a Tchecoslováquia para sufocar os movimentos estudantis que reivindicavam maior abertura política; na França, 10 milhões de trabalhadores entraram em greve e milhares foram às ruas para confrontar a polícia; enquanto na Inglaterra, vários intelectuais e artistas (incluindo os Beatles) se uniam numa petição pela legalização da maconha.Nesse enorme balaio de gatos, Mick Jagger surgia como uma figura política de grande importância, participando diretamente de atividades promovidas pelo Partido dos Trabalhadores inglês. Na verdade, a popularidade e a influência de Mick naquele ponto eram tamanhas que ele cogitou seriamente a possibilidade de se candidatar ao parlamento, sendo, sabiamente, demovido da idéia por Keith Richards.
Certo dia, numa passeata contra a guerra do Vietnã em frente à embaixada americana em Londres, o vocalista foi reconhecido em meio aos manifestantes, atraindo para si todas as atenções. Ao ser abordado insistentemente por repórteres perguntando-o sobre o vindouro disco dos Stones, Mick decide desistir definitivamente da vida política e volta para casa. Ao chegar lá, com papel e caneta em mãos ele escreveu:
“O que um garoto pobre pode fazer? A não ser cantar em uma banda de rock n’ roll? Na sonolenta cidade de Londres não há lugar para um homem lutador das ruas.”
Começava, assim, através dos versos de Street Fighting Man, a nascer “Beggars Banquet”, a primeira obra prima dos Rolling Stones.
As sessões para o que viria a se tornar o álbum iniciaram sob enorme pressão. Their Satanic Majesties Request, o disco anterior, apesar de ter obtido um relativo sucesso comercial, foi tido pela crítica como uma tentativa frustrada dos Stones soarem como os Beatles em Sgt. Peppers. Jagger e Richards sentiam que aquele era o momento da banda mostrar personalidade, deixando as viagens psicodélicas de lado e fincando os dois pés no rythm n’ blues que a consagrara.
Assim, o conjunto entra focado no estúdio, buscando permanecer longe de drogas, problemas com a polícia e qualquer outra coisa que atrapalhasse (aí, leia-se Brian Jones).
A relação de Mick E Keith com seu colega de banda mudara radicalmente nos últimos anos. De principal referência musical e instrumentista mais maduro dos Stones, Brian passara a ser tido como um obstáculo ao desenvolvimento do grupo, tendo suas idéias sempre ignoradas – por vezes, ridicularizadas - e participando cada vez menos dos trabalhos em estúdio. Brian mergulhara numa paranóia de perseguição, no vício em cocaína e na idéia de que a banda lhe pertencia e de que estavam tentando tomá-la de si.
Parte deste ambiente foi capturada pelo cineasta francês Jean Luc Goddard em seu filme One Plus One. No documentário, vemos o processo de amadurecimento de uma composição de Mick, inspirada num livro do escritor russo Mikhail Bulgakov, chamado “The Master and Margarita”. O romance, que havia sido emprestado a ele pela cantora Marianne Faithfull (o grande amor de sua vida), conta a história de uma visita do diabo à Rússia, durante a década de 1930, para checar os efeitos da Revolução. O capiroto, afim de tirar uma onda, transforma os policiais em bandidos, os poetas em tolos, os santos em pecadores e, por fim, torna-se o próprio Deus. A alegoria de Bulgakov sobre como, diante dos constantes processos de mudança, a humanidade continua exatamente a mesma, causou um impacto enorme sobre Jagger, que iniciou sua música com os mesmos versos do livro: “Please allow me to introduce myself...” Em One Plus One, percebe-se que a letra da canção já estava muito bem estruturada d
esde o começo, sendo a grande dificuldade da banda encontrar uma batida ideal para o acompanhamento da melodia. No início, ela aparece como uma balada folk, onde Charlie Watts tenta inserir uma batida discreta e repetitiva. Bill Wyman (nitidamente puto com a exclusão de suas idéias e mostrando-se completamente desinteressado) balança um chocalho, enquanto Richards cumpre o seu papel no baixo. Brian, nesse ponto, ainda parece concentrado, tocando um violão que – pelo menos no filme – está completamente inaudível.
esde o começo, sendo a grande dificuldade da banda encontrar uma batida ideal para o acompanhamento da melodia. No início, ela aparece como uma balada folk, onde Charlie Watts tenta inserir uma batida discreta e repetitiva. Bill Wyman (nitidamente puto com a exclusão de suas idéias e mostrando-se completamente desinteressado) balança um chocalho, enquanto Richards cumpre o seu papel no baixo. Brian, nesse ponto, ainda parece concentrado, tocando um violão que – pelo menos no filme – está completamente inaudível.Gradativamente, com o passar das sessões, assistimos ao crescimento vocal de Jagger na música, que se dá com a inserção de uma sessão rítmica em estilo samba (um samba inglês, meio duro, diga-se). Coincidência ou não, no mesmo ano o vocalista havia tirado umas férias no Brasil...
No fim, vemos o último dia de gravação da faixa, com a composição do jeito que a conhecemos. Enquanto Mick faz os vocais, os demais membros da banda, juntamente com Mariane Faithfull e outra mulher (que acredito ser Anita, namorada de Keith,) registram os backings. Estava pronta uma das maiores canções da história do rock: Simpathy for the Devil.
As gravações do filme limitaram-se apenas ao registro desta música, pois um curto-circuito nas câmeras pôs fogo no estúdio e só não arruinou tudo porque Bill Wyman se meteu no meio do fogaréu e salvou as fitas masters. Goddard já tinha se dado por satisfeito e partiu de lá para a ilha de edição.
O restante dos trabalhos se deu sem a presença de Brian, que a esta altura já havia se desinteressado por completo pela banda. Bill, por sua vez, estava extremamente magoado pela forma como a dupla Jagger/Richards monopolizava e manipulava o processo criativo, ignorando as idéias que qualquer outro membro, que não eles, trouxessem, mas decidira colaborar em nome do bem-estar criativo. Charlie manteve-se no papel de sempre: um músico que contribuía através de sua experiência, elegância e diplomacia, sem nunca demonstrar maiores pretensões em termos de composição.
A partir do abandono de Brian, outras grandes faixas foram registradas, como: No Expectations, um lamento no melhor estilo delta do Mississipi, com um belo slide de violão; Parachute Woman, um blusão acompanhado por gaita; e Salt of the Earth; uma balada folk que encerra com um coral de negros contratado por Keith ao encontrá-lo se apresentando no meio de uma rua de Los Angeles, onde o álbum foi mixado. Na verdade, o álbum todo é um desbunde, ficando difícil destacar faixas. As canções de Beggars Banquet estão sempre enraizadas nos grandes estandartes do blues negro yankee que influenciou os Stones, como Muddy Waters, Robert Johnson e Willie Dixon, contudo, estas referências aparecem com um olhar para o futuro. A partir daquele ponto, os Stones começaram a moldar o seu verdadeiro e mais consistente som.O conjunto ainda teve que enfrentar uma longa quebra de braço com a gravadora Decca, pelo fato da última se recusar a lançar a bolacha com a capa originalmente proposta (uma privada pública com várias pichações). Beggars Banquet saiu em vinil com uma capa branca na forma de um convite (a original só viria ao mundo na versão CD do álbum).
Na festa de lançamento, numa boate de Los Angeles, todos os convidados ficaram embasbacados com a força que o álbum tinha. Estava claro que, naquele momento, os Stones haviam atingido a sua maioridade musical. E, de fato, a seguir, já com o genial Mick Taylor no lugar de Brian, o conjunto lançaria uma sucessão de obras primas que culminaria no espetacular Exile on Main Street. A farra corria solta até que Paul McCartney decide ir ao carro buscar um compacto ainda inédito dos Beatles. O crescente de Hey Jude no lado A e os gritos de John em Revolution no lado B roubaram a cena, deixando Mick puto da vida. Mas aí já é outra história...
Para fazer o download de Beggars Banquet clique no link abaixo:
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